Olá, Esse espaço é para poesias, letras, músicas, contos, gastronomia, ciência etc.
02 fevereiro 2008
As folhas de outono
Sem saber que o outono chegou
Sem saber que o outono as levará
As flores murcham a qualquer hora
E a qualquer hora as flores crescem
Sem saber que mãos caridosas as ceifarão
As raízes apodrecem
Mas demoram a apodrecer
Sem saber quando ou porquê
O troncos caem
Sob o machado ou sob o tempo
Mas caem e nem ao menos podem correr
As árvores nascem
Crescem e morrem
Como todos nós
A vida brota em todo lugar
e se esvai a qualquer hora
sem dizer adeus
A bela música (Beauty Song - Jia Ren Qu)
Corta inteira minha dor de alma
Sangram assim meus algúrios
E não preciso precisar quando será
Apenas ouço esta canção novamente
E renovo minha mente
E mente
Se a vida não é real
Eu apenas ouço essa canção novamente
E quão bela é essa canção
escrevi essa poesia ouvindo a música tema do filme "Clã das Adagas Voadores"
25 novembro 2007
O dia em que o trânsito parou para ver...
Cochilava no banco dianteiro de passageiros de um carro japonês, aliás, um bom e confortável carro japonês fabricado na Índia, se não me engano. De repente o carro se detém e eu nunca soube explicar porque sempre acordo quando o carro resolve parar, mas é sempre assim que ocorre comigo desde minha mais tenra infância. Abri os olhos preguiçosos sem muita curiosidade, pois imaginei ser mais um engarrafamento ainda pior, não um simples trânsito lento, mas um com seus carros completamente imóveis e sua flatulência contínua de resíduos de diesel e gasolina. Não era nada incomum acontecer algo assim, mas geralmente era um trânsito muito vagaroso não chegando às vias de uma completa imobilização dos veículos, que fora o ocorrido ali naquele instante.
O que vi me pareceu muito cruel e nunca soube a razão real por que ocorrera o fato, o certo é que me chocou e ao contar aos amigos tratei com certa jocosidade para evitar mostrar meus reais sentimentos, escondendo-me como sempre fazia em relação ao meu verdadeiro modo de ser. Minha máscara não podia cair, mesmo se tratando de algo bárbaro e dantesco, acreditando que nem o próprio Dante pode imaginar inferno igual, pois sua obra não foi capaz de competir com a trevosa realidade.
Foram vários os comentários, muitos felinamente irônicos, que chegou a aliviar minh’alma pela narrativa desrespeitosa que havia feito da cena. Não que a vida humana não merecesse o maior respeito, ao contrário, prezo sobremaneira pela vida de qualquer ser animado em matéria ou espírito e a consciência me doía, em tempos longínquos, ao matar insetos e outros bichinhos. Alguns comentários, acho, passaram da medida e quem era eu para pensar assim, pois que houvera iniciado aquela prosopopéia.
Contava comigo, na cabina do carro, o motorista, o qual ao que me pareceu, estava a se divertir de certa forma perante o desenrolar dos acontecimentos, talvez fosse um sentimento meu muito mais que a realidade, pois o fato era por demais cru e “humano” para deixar de sentir alguma repulsa. O sorriso nos lábios grandemente carnudos e encarnados eram, talvez, sinal de nervosismo frente àquela violência tão típica da “racionalidade” humana.
O olho brilhante do condutor nem piscava ao contemplar o fogo, que refletia de maneira inocente em suas pupilas, dando a impressão de ter olhos incandescentes. Aos poucos o fogo cresceu e os gritos lancinantes se extinguiram, deixando o som crepitante das chamas se confundirem apenas com os ruídos embriagados da glória da turba ensandecida. As labaredas desaparecendo ao mesmo tempo em que os carros começavam a se mover enquanto os sons das sirenes eram ouvidas timidamente algures se deslocado para ali. O tumulto se desfez deixando o réu condenado com sua pena capital à mostra para exemplo ou talvez nem fosse por isso. A vítima não foi identificada posteriormente e nenhum participante da execução foi interpelado ou indiciado e as duas partes do infeliz foi enterrada como indigente sem que qualquer parente viesse reclamar para si essa responsabilidade. Os jornais pareciam acostumados ao fato e não deram importância ao fato de uma pessoa ter sido linchada carbonizada dentro de pneus até que seu corpo se partisse em dois.
O trânsito não se normaliza nunca nessas paragens, pois o normal nem se saberia dizer como é, mas os carros começaram a se mover lentamente como de costume e os seus passageiros poderiam admirar aquela estátua recém esculpida pelo fogo.
Luanda, novembro de 2007
(obra de ficção)
19 novembro 2007
Purê angolano
Ingredientes:
meio Kg de batata inglesa;
1 colher de sopa de azeite puro extra virgem;
50 ml de vinagre da preferência;
2 dentes de alho grandes amassados com sal;
1 colher de sopa de molho shoyo;
uma pitada de erva fina de sua preferência (também pode ser salsa, coentro etc.).
Modo de preparo:
Massa:
Cozer a batata em vapor, pode usar a vasilha de cuzcs, por exemplo e ponha agua na parte inferior e a batata na parte superior e tampe. Ponha em fogo brando até que a batata cozinhe.
Descasque as batatas e amasse-as em uma vasilha.
Molho:
Misture os outros ingrediente em um recipiente e misture bem.
Final:
Coloque o purê na vasilha onde será servida e misture o molho até que o purê fique homogêneo e com a cor escura.
É só servir, fica com um azedinho e um agradável sabor do alho. Todos os ingredientes podem ter sua quantidade alterada de acordo com o paladar de cada um. Por exemplo, se achar que não tem sal suficiente, pode aumentar a quantidade de shoyo ou colocar sal e assim por diante.
Espero que gostem.
Hoje é dia 19
Hoje será ontem amanhã.
15 novembro 2007
Lente
o que parece tão frágil
miserável e sem graça.
Em meio ao universo grandioso,
apenas um ponto,
um nada sem história.
Em lente poderosa trasforma-se,
transmuta-se em algo
que pode-se sentir.
Agora definidos ou quase
serão malditas as horas seguintes.
Benditas por se querer deslindar
mantendo belas ou não
as novas vidas desengraçadas,
entrelaçadas em mil causos
e cada um sem fim.
Por qual olhar curioso sofres assim?
A distância bem vinda os chama.
Seria melhor apenas os números
e as distâncias cada vez maiores.
Onde?
As horas vadias se foram a seu turno,
contaram-se os minutos e os segundos
e percebemos a fúria do tempo
em viagem funérea ao futuro
de cada um.
Não ouvi qualquer resmungo,
nem ao menos um lamento.
Tão somente o caos certamente incerto:
Os vulcões, as tempestades, as fúrias,
as escolas, os lares, os bares...
A vida de cada um
Como um catre onde se sonha,
fadas e demônios,
vidas e mortes,
amores e desencantos,
anos em segundos,
turbilhões diáfanos;
às vezes não se acorda.
29 setembro 2007
para sempre
desde que viva sem precisar
eu necessito respirar
sem que a dor me acompanhe
eu preciso ouvir
mesmo que gritem meu nome
eu quero comer
a carne crua
a verdade nua
eu não posso dormir
fechar os olhos
eternamente, amém
contudo
estou mais só, porém não
não estou mais, porém só
porém não estou mais só
só, porém não estou mais
...
contudo, estou só
ela veste preto
e de tempos em tempos crescemos
dessa vez tivemos sorte
pois pensamos enganar a morte
o sino não dobrava há muito
hoje toca sem parar
porém não é nosso esquife que segue
e eu sigo sozinho por outro caminho
as flores já estão murchas desde ontem
e ninguém percebeu o forte odor
ninguém olhou para trás
mas ela está nos esperando
ninguém a engana
nem mesmo a si
nem mesmo ninguém
olha para trás
vida e morte
para tirar sua vida
e vi da minha sala
o amor te chamar
e a morte chamar
ainda em vida
15 abril 2007
O Caminho
Mais difícil ainda era chegar
Mais difícil ainda, saber onde o lugar
Os buracos vão passando todos
Os tolos vão passando todos
Todos tolos vão passando
Todos tentando saber qual vereda trilhar
Tolos tentando
..............desviar dos buracos
Os buracos do caminho
Todos tolos de carona com o tempo
Esgueirando-se de toda sorte com ele
....................em incessante busca
Ah! Tolos tentando
E o tempo foi se embora
Os buracos ficaram para trás
Todos chegaram a algum lugar
..... e é longo o caminho de volta
.......... e é longo o caminho de volta.
Ainda sabendo que o caminho de volta nunca é igual
Nem mesmo trilhando nas próprias pegadas
...................na mesma estrada
As estradas nunca são as mesmas
E os tolos nunca são os mesmos
Todavia tentam sem poder parar
Sem poder pensar
Sem poder
Luanda, 14 de Abril de 2007
Lata d’água
Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria
Sem pensar na vida
Lata d’água na cabeça
Lá vai Teresinha
Com o filho nas costas
A matutar na vida
Lata d’água na cabeça
Lá vai a Rita
Outro filho apertando suas mãos
Correndo célere pelas ruas
A admoestar o destino
Lata d’água na cabeça
Lá vai a Vilma
Mais um filho adiante de si
Todos indo dentre os carros ligeiros
E suas vendas noutra mão
Pedindo passagem
Lata d’água na cabeça
Lá não mais a Joana
Nem seu filho às costas
Ou grudado em suas mãos
Muito menos diante de si
Tão somente as poças de sangue
E seus corpos frios no cálido asfalto
Luanda, 15 de Abril de 2007
06 abril 2007
Estou começando
Um abraço a todos.
21 janeiro 2007
O Tigre das Sombras e o Cavalo de Fogo
A legião do Tigre das Sombras chega antes de os vampiros saberem do exato do acidente. A legião é formada por membros solidários àqueles que lhes foram caros em jornadas anteriores, seguem um rigidamente uma norma de conduta: São extremamente fiéis aos seus princípios de grupo e não têm porque ter piedade ou interesse por outros que não lhes dizem respeito.
Há naquele veículo dois corpos bastante machucados que são de grande interesse para os tigres, são dois membros perdidos de uma legião chamada Cavalo de fogo, mas a inconsciência do instante não os deixa saber de onde são nem para onde devem ir ou até mesmo com quem seguir. Mas o perigo está próximo e a cada instante fica mais perto, mesmo assim o Marcelo ,todo alquebrado, tenta amparar a sua esposa Sandra enquanto começa a discutir com o Ernesto:
- Sei que queres me ajudar porém não podemos deixar os outros à mercê dos vampiros, afinal são todos iguais perante Deus.
- Eu não tenho nenhum compromisso com nenhuma divindade, o único que possuo é o compromisso com os meus, se quiser se salvar e à Sandra, acompanhe-nos – retruca Ernesto, ainda calmo.
- Mas com que se compromete então? Com todos estes maltrapilhos que andam com você sem destino, será esse povo mais importante que outros filhos de Deus?
- Não me interessa se é mais importante ou não, apenas me interessa que nós somos maltrapilhos que se ajudam mutuamente, não somos um povo, não temos sem líderes, sem deuses, sem destino, apenas a arrebanhar alguns como os nossos para continuar a vivermos em bando – diz Ernesto, com um tom de voz bem mais agressivo .
- Porquê então não deixa estes outros seguirem com vocês, pelo menos enquanto estiverem machucados. Assim que se recuperarem um pouco poderão se defenderem sozinhos?
- Não são dos nossos – responde Ernesto, com um ar de indiferença quase infantil.
E indignado, Marcelo retruca:
- Quem são os seus então?
- Todos aqueles que foram importantes para nós, e que de uma forma ou de outra ficamos compromissados em outras eras
Nisso, os vampiros já se faziam visíveis e, como abutres, esperavam para atacar a presa. Ernesto então dá o seu ultimato:
- Se quer se salvar e à ti e a sua mulher, venha agora. Não quero e nem posso perder qualquer um dos que me acompanha para aquela corja, aquele bando de sanguessugas não merece ter nenhum de nós como presa, nem mesmo um combate com eles valeria a pena – apontando para o bando de vampiros próximo diz: - E veja como são muitos, proliferam como um bando de insetos.
- Não entendo ainda este mundo, pois acabei de chegar, iremos te acompanhar, pois Sandra está muito fraca e não poderei defendê-la e não nego que também estou debilitado, pois isto que me parece ser um acidente me deixou bastante fraco.
Enquanto o bando dos Tigres das sombras deixavam o local, os vampiros atacavam com voracidade. A cena era a mais cruenta possível de ser observada, por isso Ernesto pediu a Marcelo e Sandra:
- Não olhem para traz, pois o que iriam ver não é agradável aos olhos e em nada irá lhes acrescentar, visto que ainda têm muitos pudores nesse novo mundo.
Sandra obedece sem perceber direito sua atitude devido ao seu estado, mas Marcelo caminha olhando para trás ficando estupefato a cena diabólica.
A caminhada era longa, principalmente para os novatos. Ainda não sabiam o destino, nem mesmo se havia um destino na vida daqueles seres estranhos.
Marcelo estava pensativo:
“Estes cavaleiros são realmente esquisitos, seus cavalos são ricamente ornados e belíssimos, cavalgam com extrema maestria e são, na sua maioria, cavaleiros elegantes na postura e belos em suas fisionomias, apesar de carregarem consigo um ar de cansaço ou de desalento e aquelas roupas horrorosas e repugnantes.
O sol está a escaldar-nos, fazendo-nos molhar como se estivéssemos a nadar. E porque de estarmos neste deserto cavalgando a varias horas sobre essas dunas?”
Os pensamentos de Marcelo são despertados por uma visão ainda mais dantesca: um bando de refugiados que conseguiam estar mais maltrapilhos e carcomidos, que deixavam um rastro, “seria sangue?”. À frente vinha um ser altivo, que se percebia ser um sofredor, parou à frente do bando e rogou:
- Faça uma prece por nós, senhores.
- Podemos lhe dar água, é o que temos – responde Ernesto, o qual disse não ter líder, mas não se fazia de rogado para ser o porta-voz da tribo.
- Senhor, necessitamos muito mais de orações nesse deserto do que de água – diz o mendigo.
- Se quiser, a água lhe será entregue, caso contrário estamos de partida e estamos com pressa - atalhou um outro da legião dos Tigres, que Marcelo descobriu se chamar Antônio.
- Senhor, sou muito grato por esta oferta e iremos aceitar, pois desta forma teremos como continuar com melhor ânimo para procurar outros a orarem por nós – respondeu o andarilho.
- Porque não podemos orar por estes, uma simples reza católica ou um mantra, não nos custará tempo algum, é menos que o tempo de darmos a água para eles - protestou convincente, Marcelo.
- Ainda é novato aqui e temos algumas regras, na verdade não são regras, mas meio de conviver nesta coletividade e respeitamos todos os que a integram e resolvemos não fazer este tipo de concessão a ninguém. Não estamos dando água por piedade ou outro sentimento reles, mas porque nos sobeja em abundância e não temos pressa alguma. O tempo nada tem a ver com isto. Apenas não queremos fazer prece alguma por outros que não sejam os do bando. E não podemos correr riscos desnecessários.
Enquanto Ernesto explicava estas coisas a Marcelo, outros da tribo iam servindo água aos andarilhos.
- Não consigo entendê-los, descem de seus cavalos, perdem seu tempo para doar algo que não tem a importância requerida pelos pedintes, quando é muito mais simples e caridoso doar aquilo que necessitam, ou até mesmo ambas as coisas – argumenta Marcelo.
- Não estamos sendo caridosos, estamos apenas diminuindo a nossa carga, pois não necessitamos de todo este peso – Diz Antônio, que chegava naquele instante.
A tribo estava prestes a sair do local onde estavam, já todos em seus corcéis negros, quando Marcelo desce do único cavalo branco que havia dentre todos e pára à frente do andarilho e cerra os olhos em atitude de prece, quando é interrompido em sua atitude pelo próprio andarilho:
- Não faças isso, não quebres o código dos teus.
- Não compreendo - Responde desanimado, Marcelo.
- Se este é o teu povo, ou se estás sob a tutela dos mesmos, não os desapontes, não traia a confiança dos mesmos - explica o andarilho, virando as costas para Marcelo, rumando ao seu grupo em tempo de dizer ainda: - Arriscastes muito, posto que não conheces o nosso grupo, poderíamos ser um grupo disfarçado. Que Deus te abençoe e te dê compreensão.
Neste instante uma bruma espessa, de uma claridade espantosa repentinamente toma o lugar, envolvendo o grupo daqueles andarilhos, que vão se transformam em seres vestidos com uma armadura brilhante, que de longe pareciam iluminados, todos montados em cavalos brancos. Aquele que sempre se dirigia ao grupo das sombras se curva a outro colega, vestido com uma armadura muito mais bela que de qualquer outro dentre todos que estavam presentes. Foi recebido pelo primeiro pelo nome de Jerônimo, que pergunta a Marcelo:
- Se quiseres poderá ser um dos nossos. Percebo que você nos ajudará a esclarecer a outros sobre nossas verdades, assim como um guerreiro de luz como nós,. Segue-nos?
Neste mesmo instante virou-se e iniciou lentamente a ir embora junto com o restante dos seus.
- Sandra também poderá a ser uma de vocês? - Um pouco receoso, Perguntou Marcelo.
- Todos são dos nossos, mas nem todos conseguem nos acompanhar. Penso que você ainda não está preparado – Jerônimo disse isto meigamente, voltando o seu rosto para Marcelo e desapareceu juntamente com todo o grupo que o acompanhava.
Marcelo estava confuso, quando foi despertado de seus pensamentos por Antônio:
- Seu corcel negro o espera.
Marcelo se vira e observa que o cavalo que ele montava havia desaparecido, enquanto um belo cavalo negro, o qual estava sem cavaleiro desde o início da jornada, agora foi posto a sua disposição. Calado e pensativo, montou o belo animal e seguiu para junto de Sandra e Ernesto sem pronunciar palavra. Os pensamentos mais inusitados povoavam sua mente:
“Não sei exatamente onde estou, mas toda essa gente eu conheço. Os nomes são conhecidos, as feições são familiares, apenas o local é muito estranho e a roupagem e cenário em que tudo tem me acontecido é estranho. E afinal de contas: Quem é Sandra? Quem é Ernesto? Quem é Jerônimo? Eu conheço esse Antônio de onde?.”
Ao longe avistava-se uma paisagem diferente, eram nuvens pesadas sobre uma floresta densa, tal qual uma floresta equatorial. Parecia haver uma redoma encobrindo aquela estufa e a tribo de Ernesto se dirigia para lá a passos tranqüilos, quando subitamente um vampiro, que havia atacado os acidentados de Marcelo e Sandra, apareceu subitamente. Ele se dirigiu a Antônio e exigiu que Sandra fosse entregue a ele como pagamento de salvo conduto daquele dia. Antônio, sem pestanejar, se dirigiu em direção a Sandra e Marcelo e pegou o cavalo de Sandra, quando foi interrompido por Marcelo:
- Que pensa fazer, Antônio? Acaso é isso que somos aqui? Somos moeda de escambo para a sua covardia?
- Se nos acha acovardados, tome a minha espada e enfrente o rei dos vampiros. Se vencer será líder deles e terá nossa gratidão, além de salvar Sandra, que você ainda nem conseguiu lembrar ser sua esposa em sua última jornada - redargüiu Antônio sem aparentar qualquer perturbação ou expressão de sentimento.
Marcelo pegou a espada e apontou em direção ao vampiro, quando uma luz bastante suave desceu de algum lugar das alturas e atingiu o aço, canalizando uma energia desconhecida para Marcelo e atingiu o rei dos vampiros, que caiu inerte na frente de todos do bando das sombras. Neste instante uma revoada de vampiros se apresenta e se prostra à frente de Marcelo reverenciando-o como novo rei. No chão, abatido, o antigo rei dos vampiros havia mudado sua feição de homem-morcego para uma feição humana e sofredora, se contorcendo de dor, o que encheu de compaixão o pobre Marcelo, agora muito mais confuso.
- Procurem outro líder, pois não sou dos teus e nunca conseguiria sê-lo. Afastem-se destas paisagens e nunca mais ataquem nestas regiões.
Ouvindo isto, dois vampiros que estavam à frente do grupo se entreolharam e dividiram o imenso bando em dois e cada um foi para um lado, sumindo no horizonte.
Dentro da floresta, Marcelo perguntou a Ernesto o que havia acontecido com ele e este recomendou um bom sono para que as energias fossem restabelecidas e a memória pudesse trabalhar em seu habitat verdadeiro.
Sandra e Marcelo foram levados a uma tenda para o repouso e ficaram lá por três dias seguidos, de onde saíram para assumir seus postos junto ao bando. Estava tudo estranhamente claro para eles.
20 junho 2006
Outra Porta
São muitas as portas que abro
e outras tantas que se fecham
Encontro vidas errantes
e perco momentos ganhando novos erros
Encontro outra porta fechada
Vejo sinais de luta
e observo os trôpegos feridos
em busca de chaves sem portas
Ouço um canção ao longe
e abro aquela porta
e eis que encontro
outra porta
Pronome
e um tu apenas pronome.
Mas se marejas de teus olhos, o sal.
A secura de meu sorriso se desmancha em dor
qual ampulheta que não marca o tempo
e se esqueceu do amor.
Anjos Noturnos
são lágrimas dos anjos
a chorar meus erros
e meus erros envoltos em lágrimas
são buscas incessantes
por anjos nas noites
Grades
Vejo uma grade
E outra
Lá fora
Grades por todo lado
Só não há acima
E eu não sei voar
13 abril 2006
A PSICOGRAFIA
O ar pesado, que respiram os dois homens, se torna mais pesado. O sono bate à porta e, autorizado, invade as salas, os quartos e tudo que se pode desvendar, Os seres viventes, tomados de assalto, todos caem adormecidos. As horas parecem Ter parado. O tempo toma consciência de sua eterna escravidão e tenta se libertar. O caos está formado!
Nesse clima, chovendo lá fora é que entro na estória, correndo para não mais me molhar, pela porta escancarada da casa isolada e mal habitada. Tropeço, logo na entrada, em um cão enorme. Quando me viro, e vejo a fera, penso logo no fim, que poderia estar próximo; mas o animal mantinha a sua fisionomia feroz, como se fosse uma máscara mortuária; parecia estar morta ,mas parecia estar vivo. Não me preocupei. Bati palmas à procura dos donos da pequena mansão; o som ecoou por vários minutos, como se não houvesse ali móvel algum, ou mesmo, estivessem a uma distância muito maior do que a divulgada por minha torpe visão. Dirigi-me, então, à poltrona que estava próxima a minha frente. Caminhei em sua direção, horas seguidas, e nunca conseguia alcançá-la. O pânico foi tomando conta da única entidade sóbria e viva ali existente: eu. Comecei a correr como um louco, teria quebrado todos os recordes em uma olimpíada, mas tudo permanecia a mesma distância a minha frente. Outra vez me viro, mas agora o enorme cão estava tão pequeno e tão distante, que o desespero foi aumentando…Voltei voando para alcançar o, agora, filhote adormecido. Parecia um pesadelo, mas ao me beliscar a dor existiu. O cachorrinho se mantinha longe. Tentei adormecer, mas foi em vão, pois nem o chão eu conseguia alcançar. De alguma forma, outra dimensão estava zombando de mim. Estava agora em uma casa sem chão ou espaço, e com o tempo se rebelando com a situação, absurda do não regresso. Eu estava morto, pensei eu; deve ser assim o inferno. Chorei amargamente!
Passei muito tempo ali parado, pensando, tentando acordar daquele sonho maldito. Resolvi gritar em busca de auxílio externo, ou de onde quer que viesse, mas o espaço também estava louco, o som não sabia de onde sair ou mesmo para onde ir. Eu estava isolado em um limbo, ou em um sonho alheio. “E! Talvez seja isso. Agora basta acordar esse alguém”, pensei eu. Mas quem era e, como chamá-lo se eu podia falar ou chamar quem quer que seja.
Agora, vinha de algum lugar o som de palmas; pensei que estava salvo. Mas prestando atenção na cadência, vi que eram minhas próprias palmas, as da minha entrada. Outra luz se abriu, os meus gemidos de socorro poderiam aparecer a qualquer instante, ou em muitos séculos. Não importava muito, para mim o tempo não fazia muita diferença. Eu parecia estar ali há muitos anos e ao mesmo tempo, parecia que acabara de entrar.
O cão havia sumido. Agora eu estava só, e sem entender a louca viagem na qual entrara. As paredes começaram a sumir; os móveis há muito já haviam se dissolvido. Eu estava completamente só em lugar algum.
O novo cenário que se desenhou não tinha traços, era apenas a tela borrada tentando chegar a algum forma, mas o artista parecia neófito no assunto.
De repente, alguns grunhidos compareceram à minha presença. Eram três gritos distintos, cada um se anunciava a seu tempo. Juntando as três entidades, resolvi que eram: Socorro, Me ajudem. A princípio se posicionaram de tal forma que eu consegui entendê-las como mensagens, mas aos poucos foram se modificando as suas posições, os seus volumes, a entonação e o timbre; e mais ainda, cada entidade começou a “anagramar-se”, formando palavras desconhecidas e sem significado e, num último estágio, se tornaram uma só entidade, mas eu não conseguia mais vê-la, apenas um grande ruído com aparência de eterna despedida era reconhecido pelos meus sentidos, que já se confundiam. E tudo se tornou calmo e tenebroso novamente.
Enquanto ouvia a minha própria voz transfigurada, vi o mundo real, e vi, também, dois homens em profundo sono, bem á minha frente. Eu deveria estar dentro dos sonhos daqueles dois imbecis.
Muitos anos depois, após a minha morte, descobri que aqueles dois homens haviam morrido de uma dose excessiva de heroína.
O episódio de minha morte se deu antes do meu nascimento. Foi pouco depois d’eu conseguir sair da prisão da prisão psicodélica em que me encontrava:
“Aconteceu de aparecer novamente a pequena mansão, com o cão feroz adormecido na porta. Resolvi, então, sair o mais rápido possível daquele lugar horrendo. Encontrei lá for a uma escuridão que até então não conhecia; andei por muito tempo na direção oposta à casa, até que uma luz noturna se apresentou lá ao longe. Corri desesperadamente em busca da vida que prometia me aguardar do outro lado.
Chorei como criança ao pisar do lado de for a da enorme caverna, não era a emoção de estar livre, mas a tristeza da certeza de estar eternamente preso.
Eu chegara de alguma forma a um passado longínquo. Aqueles homens primitivos me assustavam. Não sabia, eu, se seria venerado como um deus, se seria oferenda a um dos seus, ou mesmo me tornaria a sua próxima refeição.”
Copyright by Manada
data ignorada, mas deve ser em torno de 1985